Inspirado em Death Note, de Tsugumi Ohba
I.
O primeiro a morrer foi o deputado Sérgio Moraes.
Duas e pouco da tarde. Era numa movimentada parada de ônibus em Brasília. Claro que o deputado não esperava para pegar um ônibus. Mas, quando passou em frente, as pessoas começaram a aplaudi-lo.
Não era a primeira vez que isso acontecia. Moraes, agora, era uma estrela. De desconhecido completo, a superstar em Brasília. Desde que disse aos jornais sua fatídica frase. Coerente com ela, nem se lixou para os aplausos. Meia boca se abriu num sorriso irônico, a outra metade permaneceu fechada em desdém, e acenou como quem agradece.
Continuou seus passos.
Seus últimos três passos, como logo descobriria.
No primeiro, pensou em como a imprensa se transformou num grande mal da sociedade, que, com seus lançamentos de opinião, geram aberrações como essa, em que ele vira um bode expiatório. Logo ele, Sérgio Moraes, o único que foi íntegro e falou aquilo que já havia dito, em portas fechadas, para diversos colegas, e sido aprovado enfaticamente por todos, talvez na ocasião tão aplaudido como o povo o aplaude agora.
No segundo passo, pensou que continuaria a defender sua verdade. Continuaria a defender sua honra. Continuaria se lixando para toda essa ilusão, todo esse jogo de fantasias, e fazendo seu trabalho. Deputado do PTB para o Rio Grande do Sul, e não joguete para vender jornal. Sabia o que era o certo, sem as hipocrisias que apenas quem está lá fora consegue dizer. Se as pessoas soubessem o quanto é trabalhoso se eleger deputado, quanto dinheiro se tem que gastar, entenderiam que eles merecem as regalias. Merecem as passagens aéreas, os empregos para os parentes, merecem quatro anos de bonanza. Sou um vencedor. O Brasil parece um processo de Kafka, ou uma Rainha de Copas de Alice, em que nós somos condenados publicamente antes mesmo de sermos julgados.
No terceiro passo, ia começar a pensar algo sobre a absolvição de Edmar Moreira, mas de repente não conseguia pensar em mais nada. Apenas em apertar com força a mão direita no peito esquerdo. Dor, dor muito intensa. Sentiu a baba escorrendo da sua boca.
O povo observava, do canto, atônito. Sérgio Moraes, o deputado que emprega mãe e filho, o deputado que gasta cinco mil por mês em combustível nos postos dos amigos, o deputado que contratara a própria empresa para serviços de segurança da Casa, não os realizou e se apropriou do dinheiro, e, principalmente, o deputado que se lixava para a opinião de todos eles, estava tendo, ali mesmo, um fulminante ataque do coração.
Ninguém prestou socorro. Se lixaram para ele.
O ônibus do rapaz mais indignado do ponto, aquele que puxou os aplausos, chegou, e ele resolveu deixar a curiosidade de lado, afinal esse ônibus demora à beça pra passar e ia chegar atrasado caso esperasse o próximo.
Um pouco depois, os paramédicos chegaram. Um universitário que a tudo observava sentiu vontade de impedir os paramédicos. “Calma, talvez ele ainda não esteja morto” Mas preferiu apenas elocubrar sobre isso e tirar mais algumas fotos de seu celular para o twitter.
II.
Depois do twitter, saiu nos jornais online. “Morre Deputado Federal Sérgio Ivan Moraes (PTB/RS) de ataque do coração fulminante. Conselho de Ética articula substitutos para a relatoria do caso de Edmar Moreira”
Poucas vezes, como naquela tarde, os bares venderam tanto chopp. É que as notícias não pararam por aí. As discussões para a substituição da relatoria de Edmar Moreira duraram apenas vinte e oito minutos.
“Morre de ataque fulminante o deputado do castelo, Edmar Moreira, aos 59 anos. Herdeiros se desentendem pela divisão dos bens.”
Mas foi necessário mais, para que da comoção e do êxtase nacional – Deus realmente é brasileiro? – começassem a levantar outras vozes, fora as que felicitavam a alegre casualidade. Então uma hora depois, às 16 em ponto, horário de Brasília, as meias dúzias de pessoas que assistiam à TV Justiça viram ao vivo o Ministro Gilmar Mendes engasgando no meio de um “Vossa Excelência”, segurando o peito e caindo para o lado.
Já Daniel Dantas foi encontrado às 17h em sua banheira. A cozinheira estranhou quando viu a água vazando pela porta do banheiro. O patrão entrara no banho fazia uma hora.
E então, a verborragia começou. Em português que muitas vezes migrava para babel. Eram muitas vozes e muito o que falar.
“Interrompemos este programa para notícias de última hora: Morre o publicitário do mensalão, senhor Marcos Valério.” Frases como esta vinham uma após a outra em todos os canais, que, para o azar de algumas vovós, cancelaram até mesmo suas novelas para uma cobertura dedicada dos eventos.
Renan Calheiros morreu no consultório do cardiologista. Esperto, o político logo percebeu, pelas características dos que vieram antes dele, que sua vez estava chegando. Quis se prevenir. O médico – o mais caro de Brasília, consulta paga pelo Senado - após uma bateria de testes, disse que ele não se preocupasse, que não havia nada de errado com ele. Já mais aliviado, Renan foi embora, e morreu esperando o elevador.
O voo 950 da American Airlines, para Miami, às 18h30min, fez um pouso de emergência na Cidade do México. Um dos passageiros, o senador Fernando Collor, teve um ataque fulminante a bordo.
Tudo isso era narrado e comentado, e as explicações mais diversas brotavam.
Religiosos exaltados diziam que era mais um sinal do apocalipse e apontavam trechos em livros que, em aforismos e metáforas e sentidos figurados, óbvia e claramente prediziam aqueles acontecimentos.
Outros religiosos diziam que aquilo era uma punição de deus para aquelas pessoas. Afinal, o povo as elegia, mas o poder é algo que vem apenas de Deus, e ele também pode tirar.
Especialistas em medicina começaram a falar de um vírus mortal, talvez uma variante letal da gripe suína, que um dos políticos teria pego em uma de suas muitas viagens ao exterior, e transmitido dentro da Casa. Isso explicaria porque apenas pessoas ligadas à política estariam sendo contaminadas.
Médicos holísticos e alternativos diziam que a corrupção latente, o escárnio e a desfaçatez daquelas pessoas atingia níveis tão extremos que lhes estava apodrecendo o coração e fazendo-os morrer um a um.
A maioria dos comentaristas políticos também descambava para alguma explicação punitiva. O ser superior estava irado com aquelas pessoas que, embora eleitas para um mandato para o povo, deturpavam e manipulavam os três poderes de modo a fazê-los servir apenas a eles mesmos.
Mas tudo era especulação. Sergio Moraes, Edmar Moreira, Gilmar Mendes, Daniel Dantas, Marcos Valério, Renan Calheiros e Fernando Collor. Sete nomes ligados a alardeados casos de corrupção no Brasil haviam morrido de ataques cardíacos fulminantes, em apenas quatro horas, e ninguém tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
III.
Elisa clicou em enviar. Se levantou, pagou os cinco reais ao dono da Lan House e foi embora. A jovem formanda em Direito pegou o ônibus – o primeiro dos três que teria que pegar – e fechou os olhos, encostando a cabeça no assento. Seria uma longa viagem até a Tijuca, onde morava no Rio de Janeiro.
No seu bolso de trás do jeans, um caderno bem pequeno, de pauta simples. Capa dura e negra, sem nenhuma inscrição. Quarenta e oito páginas, vinte linhas por página.
Na primeira página, sete nomes escritos.
Após a viagem, de quase três horas, chegou a sua casa. Entrou no quarto. Ligou a tevê, a internet, o rádio, e deu um oi pro Morte.
Como prevera, as três horas já tinham sido suficientes. O e-mail que enviara para os principais jornais mais cedo da Lan House havia sido a maior notícia desde que os assassinatos haviam começado.
Aqui é o Assassino. Venho informar à população que está começando uma nova era. Chega de impunidade. Chega de criminosos de colarinho branco cometerem atrocidades e rirem em nossa cara, cientes de que jamais pagarão pelo que fizeram. Chega de governantes viverem em mansões, assaltando cofres que deveriam saciar a fome de um povo faminto. Declaro esta a Nova Lei:
Parágrafo único: A pena única é a morte. Incorrem na pena única: Responsáveis por peculato, formação de quadrilha, irresponsabilidade fiscal, lavagem de dinheiro e as outras diversas e inúmeras práticas comumente generalizadas como corrupção, seja por ação ou omissão.
A justiça talvez não os alcançasse. Mas eu alcançarei. A imunidade parlamentar não os protegerá desta vez. Para provar minha identidade, em meio a tantos falsos pronunciamentos nas redes, afirmo que Delúbio morrerrá hoje às 18h em ponto, e, que toda futura comunicação minha virá acompanhada de um vaticínio como este. Sugiro que me surpreendam e ajam como foram eleitos para agir. Que tal começar moralizando as indenizações e regalias a que os senhores têm direito? Suas vidas estão em suas mãos. Boa tarde, Excelências.
Elisa sorriu triunfante para Morte. O jovem garoto se levantou da cama de Elisa, e largou de lado o Cubo Mágico, numa frustração tão serena que apenas ele sabia demonstrar.
“Não tem como. Quando completo um lado, desfaço os outros. É impossível.” Sua voz era aguda e muito humana.
Elisa nada disse, apenas abriu um vídeo no youtube que mostrava um rapaz resolvendo em poucas dezenas de segundos, vendado, e continuou olhando para a televisão. Sorria com deleite a cada vez que a comparavam a um deus punitivo.
“Impressionante.” Disse Morte. Por fim, Elisa falou, com uma ponta de desprezo. Seus olhos inquisitivos dançavam entre a televisão e o computador.
“Estamos matando esses ladrões todos à distância e trazendo justiça para o país, e o que você acha impressionante é um rapaz montando um cubo.”
Morte se assustava com a frieza da jovem. Escolhera muito bem. Pelo pouco que observara, achava que os humanos iriam usar o Caderno para conseguir dinheiro.
Elisa, quando encontrou a ele, Morte, duvidou, naturalmente, que o Caderno realmente pudesse matar instantaneamente qualquer pessoa cujo nome fosse escrito nele (O possuidor do caderno deve mentalizar a pessoa enquanto escreve, para evitar a morte acidental de homônimos). Como numa brincadeira, abriu o jornal que levava esmigalhado, de raiva, na mão e copiou o nome de Sérgio Moraes.
Quando viu, meia hora depois, a notícia na televisão, se surpreendeu. Foi a primeira e única vez que Morte viu surpresa nos olhos calculistas da moça.
Um alarme tocou. Dezoito horas. Elisa abriu um jornal e escreveu mais um nome. Na televisão, o repórter estava na frente da casa do ex-tesoureiro Delúbio Soares. A polícia tinha a casa cercada, e havia um helicóptero sobrevoando. O ingresso da imprensa não havia sido autorizado, e Delúbio estava confinado lá dentro pelas últimas duas horas, totalmente protegido. Às 18h03min, o médico saiu da casa, anunciando que ele havia morrido de ataque fulminante.
O repórter então confirmou: A ameaça não era apócrifa. O assassino estava se comunicando.
“Muito bem, Elisa.” A voz de Morte era prazerosamente pausada. E sempre parecia trazer no final uma insinuação irônica, como quem estivesse se divertindo muito com aquilo tudo e apenas pretendendo seriedade. “Com uma vingadora implacável como você, certamente haverá um surto de moralidade neste planeta.”
“Estou contando com isso. Mas essa é apenas a primeira fase de meu plano.”
Morte olhou para a tevê. A repórter falava que logo começaria uma entrevista coletiva com o chefe da Polícia Federal responsável pelo caso. Elisa surfava por oito páginas ao mesmo tempo. Numa delas, passava os olhos nas "Centúrias de Nostradamus que previam tais acontecimentos".
“A primeira fase? Mas pensei que seu objetivo, com o meu presentinho, era... quais foram suas palavras, mesmo? Ah, sim! ‘Acabar com toda essa roubalheira que a gente vê nos jornais e começar uma nova era na política.’ Deixa eu ver de novo o vídeo do cara vendado fazendo o Cubo Mágico.”
Elisa deu o replay. Morte tentou analisar os movimentos na tela e copiá-los. Elisa, após alguns segundos, com o olhar no infinito, replicou:
“Talvez no começo. Mas, após alguns anos, as mortes deixarão de ser necessárias. Todos saberão que sou invencível. E então... poderei me declarar líder da humanidade.”
“E guiá-la por uma nova era de prosperidade e de... honestidade”, acrescentou a moça após alguns segundos.
Morte conseguiu manter o semblante sério. Ah, vou adorar esses humanos.
Na televisão, começava a entrevista coletiva com a Polícia Federal. “Operação Götz.” Elisa e Morte, em silêncio, olharam para a tela.
IV.
O delegado Luís Carlos Luz, já de sobretudo, vestiu a máscara. Colocou o chapéu de aba longa. Se olhou no espelho. Todo de preto. Gostou, parecia uma espécie de super-herói implacável. Muito apropriado, já que no momento, realmente ele tinha um super vilão para pegar. E estava um calor desgraçado ali dentro. Não à toa os heróis das revistas que ele lia sempre defendiam uns países mais friozinhos.
"A identidade de um delegado da Polícia Federal não será o bastante. Preciso deste super uniforme." Riu de si mesmo. Não, não era por isso que ele usava a máscara.
O motivo verdadeiro era medo.
Ou cautela, como disse à imprensa. Mas era medo, mesmo. O assassino investigado pela Operação Götz tinha algum tipo de poder sobrenatural. Matava à distância, sem defesa. Eles precisavam é da Interpol pra pegar o sujeito, mas o presidente não queria saber de gringos no meio. Era um problema do país, que o país ia resolver. E assim, sobrou para ele.
Götz. Era por isso que gostava de seu trabalho. Toda operação tinha um nome legal. Götz foi sugestão do próprio Luz. O homem do punho de ferro. Um poderoso lorde medieval, por fora. Mas um truculento mercenário com instintos assassinos por dentro.
Abriu as portas duplas, e os repórteres já estavam todos ali. Os abutres, em vez de voar para cima dele, estavam sentados, calmos. Os camera men ainda não iniciaram a filmagem. Haviam todos sido instruídos das regras do jogo, claro.
Sua identidade era desconhecida, e como precaução adicional à máscara, solicitara "aquele rosto protegido, cheio de pontinhos, de menor de idade criminoso na TV".
O inimigo que ele enfrentava tinha técnicas novas de assassinato. Matava à distância, e não com balas ou explosivos, mas com ataques cardíacos. Mas tudo até então fazia Luz crer que ele estava protegido. O modus operandi do assassino não tivesse nada a ver com enxergar a vítima. Apenas Gilmar Mendes estava sendo filmado na hora do assassinato. O assassino precisava de outra coisa para poder matar a vítima.
Talvez conhecer o rosto.
Falou teclando em um computador armado com um software gerador de voz a partir de texto. Entre "Estamos tomando todas as medidas para pegar o criminoso", "A Polícia Federal está mobilizada para enfrentar este desafio, as investigações já começaram", "Certamente ele não escapará" e outras declarações ainda mais vagas, a entrevista coletiva se encaminhou sem sobressaltos. Luz, racionalmente, não acreditava que corresse perigo. Mas não deixou de sentir um alívio ao ver que já falava há trinta minutos e não havia morrido. Suas últimas palavras no ar foram um desafio: "Você matou covardemente várias pessoas, assassino. Mas não a mim. Estou além do seu alcance. Aproveite sua liberdade, enquanto ainda a tem."
A primeira coisa que fez, de volta a sua privacidade, foi tirar aquela máscara. Mergulhando o rosto na água fresca do chuveiro, para limpar todo aquele suor, Luz se perguntou se tinha sido uma boa aquela entrevista. Ora, ele disse a seus superiores que era contra a ideia. A entrevista apenas valeria a pena se pudesse ser utilizada para cercear o assassino. Assim como foi, apenas o deixaria precavido. Mas seus superiores disseram que a população estava assustada e precisava saber que providências estavam sendo tomadas.
Coisa nenhuma. Politicagem pura. Pelo que via, a maioria da população estava adorando Götz. No próprio efetivo da Polícia Federal, ele vivia ouvindo aclamações ao adversário. "A gente prende, a justiça solta. Ressucitar a justiça não consegue.", dissera ontem um colega no bar.
Se prendesse o assassino, talvez fosse condecorado. Mas não pela opinião pública. "Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come" era a transcrição perfeita da pressão sobre Luz. Ora, caso não pegasse o assassino, teria falhado. Mas, caso pegasse, entraria para a história como o homem que devolveu aos políticos a impunidade.
Mas Luz, no íntimo de seu julgamento pessoal, desaprovava totalmente a conduta desse assassino. Talvez por isso tivesse sido o escolhido. É preferível uma relativa impunidade a esse regime totalitário, unilateral. A ampla defesa foi uma conquista da sociedade. Tem seus efeitos colaterais negativos, mas é necessária num estado de direito. Fora que Luz era um pacifista e condenava a pena de morte.
Enfim, o responsável por tais assassinatos era um criminoso, e merecia ser tratado como qualquer outro matador. O fato de escolher vítimas... digamos, não muito populares não fazia dele um herói que finalmente trazia justiça ao país.
Sentou em seu escritório e reviu os relatórios. São Gonçalo e juventude. Eram suas duas únicas pistas.
Provavelmente a Lan House que ele utilizou, em São Gonçalo, ficava longe de sua residência. O anonimato da internet dificultava as coisas. (usara uma conta de e-mail gratuita, criada na hora) Não havia câmeras, e o dono não lembrava quem utilizara aquela máquina àquela hora. O cibercafé era frequentado apenas por jovens viciados em games online, (a maioria provavelmente menor de idade, mas seu colega Borges fez vista grossa), e o dono disse que certamente teria se lembrado se fosse uma pessoa mais velha.
Ia pegar Götz, e condená-lo, utilizando apenas os meios legais.
Mas primeiro... precisava que ele cometesse mais erros.
V.
Aquiles arremessou a lata na lixeira, mas errou por algumas jardas. Ela pousou ao lado de algumas guimbas de cigarro e uma embalagem de preservativo. Os respingos de cerveja gotejaram sobre a superfície do seu quarto. Sempre escuro e um latente e úmido odor de mofo.
Elisa estava deitada na cama ao lado dele. Na tela, um filme antigo de vampiros.
A jovem já tinha visto esse filme umas dez vezes. Era o favorito de Aquiles. Barba por fazer, barriga surgindo indecente sobre a camiseta que vinha ficando curta demais, esparramado na cama de seu cubículo, o compenetrado Aquiles afastara a garota em duas tentativas de beijos durante o filme.
Agora não, agora não...
Acabou. Tela preta. Elisa se moveu para abraçar o namorado, mas mal o primeiro nome dos créditos surgira e a tela piscou diante de Elisa. Agora passava um desenho animado antigo. Elisa murmurou um "deixa aí", mas a tela piscou de novo e mostrou o Congresso Nacional.
O jornalismo investigativo estava mais eficiente do que nunca. O fato de que um recurso público mal-usado vindo à tona significaria uma morte estava longe de frear a mídia.
A primeira reportagem, se sólida, já garantia uma segunda matéria ainda mais impactante, achou graça Elisa.
Ontem na TV teve um novo depoimento da tal Operação Götz, em que o homem de preto - ainda mato esse cara - denunciava a imprensa, acusando-a de colaborar com o assassino com tantas divulgações irresponsáveis.
Choveram críticas a tal acusação. Ora, a mídia apenas fazia seu trabalho, retrucavam. Um apresentador político, especialmente afeto às práticas de Elisa, disse que a Polícia Federal, felizmente, não tinha capacidade para fazer seu trabalho sujo e metia o bedelho no trabalho dos jornais, e fez algumas comparações com Hitler.
Depois que as mortes começaram, diversas denúncias vieram à tona. Elisa tinha que ter muito cuidado, buscava em diversas fontes e apenas escrevia o nome quando as provas circunstanciais eram descaradamente óbvias. Por exemplo, ontem havia matado dois. O primeiro era um senador que contratara os serviços de uma certa empresa que pertencia ao segundo, que, por sua vez, empregava toda a árvore genealógica viva do primeiro em seu gabinete. A prova descarada era que assim que as mortes começaram, subitamente o segundo senador trocou seus funcionários e fechou a empresa.
Mas, principalmente na internet, proliferavam denúncias sem cabimento. Talvez de inimigos querendo uma forma barata de assassínio. Elisa já descobrira um padrão nelas, e as evitava sumariamente.
Mas tenho que parar de pensar nisso. Tenho que continuar levando minha vida normalmente. Sentiu os dedos de Aquiles lhe roçarem os cabelos. Olhou para o lado. Ainda hipnotizado pelas imagens em movimento à sua frente.
A mãe odiava Aquiles. Tentou de todos os jeitos que Elisa namorasse outros garotos, como o vizinho que cantava na igreja (muito bonito, mas tão sem sal) ou aquele riquinho azedo da faculdade, que estagiava num grande escritório.
Aquiles era oito anos mais velho, e a pizzaria o demitiu há duas semanas, depois de uma reclamação do cliente de que a pizza chegara outra vez atrasada, fria e mexida. Às vezes bebia demais e se tornava violento, mas, no resto do tempo, era o homem mais maravilhoso que existia. Líder por onde andava, estava sempre confortável e falava o que vinha na cabeça. Seu sorriso era irresistivelmente aberto, mas era sua voz que a seduzira em primeiro lugar. Além disso, Aquiles conhecia o corpo de Elisa como sequer ela mesma.
"Esse Götz sabe o que faz." Disse Aquiles. Elisa não gostava muito desse apelido que a mídia lhe dera, por conta da operação. Mas gostou de saber a opinião de Aquiles; até o momento ela não falara naquilo com o namorado, sempre buscava evitar puxar esse assunto. Sabia que não levantaria suspeitas - por favor, o assassino podia ser qualquer pessoa do pais - mas instintivamente não queria arriscar.
"É, também gosto dele. Você viu, amor, como o congresso reduziu seus gastos desde que as mortes começaram, semana retrasada?"
"É? Olha isso, gatinha... " Na TV, um deputado, que havia proposto o recém-aprovado fim das verbas indenizatórias, dava um depoimento. "Eles não têm a mínima ideia do que estão fazendo. Não têm vocação para serem honestos... Haha..." A risada de Aquiles se metamorfoseou num acesso de tosse, que Elisa aguardou pacientemente. Então respondeu:
"É verdade. Eles tentando legislar... tentando fazer propostas para a sociedade... tão forçado. Tão artificial."
"Mas você falou tão bonitinho agora. Repete? Vem cá, gata."
(confira o final aqui)

2 comentários:
Simplesmente M A R A V I L H O S O!!!!
adorei!!!! Cheio de estilo, me prendeu! Quero mais!
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